“Todos sonhamos em retornar”: Exibição de filme e festa com álbum de Bad Bunny relembra aos Boricuas da Filadélfia como é estar em casa

Um simples objetivo: reunir fãs para falar dos conceitos culturais e históricos do álbum e do curta-metregam de Bad Bunny “DeBÍ TiRAR MáSFOTos”. O resultado foi uma vibrante reunião de duas horas de conexão cultural, luto e libertação.

Por Vicky Díaz-Camacho. 19 de fevereiro de 2025.

Mais de 300 pessoas compareceram ao Taller Puertorriqueño na quarta-feira (12) para uma exibição do filme, uma festa com o álbum e um debate a respeito dos temas colonialismo, resistência e orgulho porto-riquenho presentes na obra de Bad Bunny. Foto: Vicky Díaz-Camacho

Poster do filme curta-metragem “DeBÍ TiRAR MáSFOTos”. Fonte: IMDB

Na noite da última terça-feira, 12 de fevereiro, o grupo comunitário Philly Boricuas realizou um evento para falar do contexto local do novo álbum de Bad Bunny, DeBÍ TiRAR MáSFOTos.

Mais de 300 pessoas compareceram para uma exibição do filme, uma festa com o álbum e um debate a respeito dos temas colonialismo, resistência e orgulho porto-riquenho presentes na obra de Bad Bunny.

Conversas sobrepostas e abraços aqueceram o clima e o Taller Puertorriqueño na quarta-feira, último dia 12, à noite.

Uma fila de participantes se estendia pelo saguão, enquanto Amy’s Pastelillos servia copos cheios de arroz com gandules, salada de batata e uma seleção de pollo guisado, lentilhas ou pernil.

O evento gratuito foi co-organizado por voluntários do Philly Boricuas e do Taller Puertorriqueño. As atividades tiveram início com o curta-metragem, com o mesmo nome do álbum DeBÍ TiRAR MáSFOTos, que compartilha a história de um senhor porto-riquenho vivenciando a americanização e a gentrificação em seu bairro.

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O personagem animado do filme, Concho, refere-se a uma espécie de sapo, o sapo-de-crista (ou sapo concho), que enfrenta a extinção na ilha.

O personagem animado do filme, Concho, refere-se a uma espécie de sapo, o sapo-de-crista (ou sapo concho), que enfrenta a extinção na ilha. Esse pequeno personagem traz à tona os impactos que a ilha vem sofrendo na flora e fauna, já que os sapos só existem em áreas preservadas e protegidas, como a Floresta Estadual de Guánica e Punta Ventana em Guayanilla.

“Assim como os porto-riquenhos, o sapo enfrentou as dificuldades dos processos históricos que moldaram o século XX de Porto Rico: migração, a introdução de espécies invasoras e os impactos das mudanças climáticas. E, como muitos porto-riquenhos, continua lutando pela sobrevivência”, disse Adrián Rivera Reyes, membro do Philly Boricuas.

Durante a exibição do curta-metragem, o público ficou praticamente em silêncio, exceto por risos, choros e suspiros audíveis. Na sequência, Philly Boricuas conduziu um debate para que os presentes compartilhassem suas opiniões a respeito.

“O primeiro sentimento que me vem à mente é que não sou desejado – onde quer que eu esteja. [Ou que] não é onde eu deveria estar”, disse Alfredo, que se identificou apenas pelo primeiro nome.

Após a exibição, foi proposto um debate com os presentes, a fim de discutir quais sentimentos o curta despertou. Foto: Vicky Díaz-Camacho

O público foi incentivado a discutir e compartilhar quais sentimentos o curta despertou. Houve uma tendência majoritária nas respostas. Muitos se identificaram com o deslocamento e com o sentimento de alienação.

“Lembramos de ir para a casa da nossa tia e… o movimento no bairro. Agora está muito quieto. Até os povoados parecem estar morrendo. É muito triste”, continuou Alfredo. “Tenho familiares que dizem: ‘Todo mundo está indo embora’. [Saindo] depois do furacão Maria ou até mesmo [procurando] empregos. Eles dizem: ‘Não consigo mais viver na ilha’. Então eles vêm para cá [EUA] e estão desesperados para ir embora.”

Alfredo acrescentou: “Este filme mostra o que acontecerá quando a aceleração e o deslocamento do nosso povo se intensificarem.”

Houve um consenso: os porto-riquenhos estão enfrentando perdas severas, como suas casas familiares e sua cultura, enquanto residentes e desenvolvedores ricos dos EUA se mudam para a ilha e mudam pilares culturais ancestrais, como os "quesitos".

“O filme me deixa furioso. A maior coisa que o álbum fez por mim – uma porto-riquenha de primeira geração nascida e criada no norte da Filadélfia – é que eu sempre ouvia que o plano era voltar. Quando isso deixou de ser o… plano?”, disse a participante Adrianna.

O evento incluiu uma análise de cinco músicas, com discursos dos organizadores comunitários Adrian Rivera Reyes, Charito Morales, Justin Roig, Deborah Rodriguez e Vanessa Maria Graber.

Morales, que apresentou a música "NUEVAYOL", destacou a importância do título. Ele disse que gerações anteriores de migrantes porto-riquenhos usavam a expressão “Vamo’ a Nueva York” para se referir aos EUA. Embebida na música está uma mensagem de como as comunidades forjaram conexões e construíram comunidades onde puderam. Isso está presente em Nova York, mas também no “Norte Hispânico” da Filadélfia, como Farihill e Kensignton, onde vivem os maiores aglomerados de residentes porto-riquenhos.

Tan pronto como comenzaron a sonar los ritmos de salsa, las personas comenzaron a agitar sus banderas, cantar y bailar. Foto: Vicky Díaz-Camacho

Assim que os ritmos de salsa começaram a tocar, as pessoas começaram a acenar suas bandeiras, cantar e dançar.

Outro participante, Rafael Álvarez Febo, que nasceu em Porto Rico e foi criado nos EUA, disse que tem orgulho de seu dialeto porto-riquenho. Ele pediu ao público que mantivesse seus laços culturais e construísse conexões fortes com seus companheiros boricuas. Tanto o filme quanto o álbum foram, para ele, uma carta de amor.

“É uma carta de amor”, disse Álvarez Febo, lembrando ao público para abraçar seu orgulho porto-riquenho. “Sempre falam da ilha, mas é o povo que faz Porto Rico.”

Ele disse que as pessoas sempre falam da ilha, mas é o povo que faz Porto Rico ser o que é.

As últimas obras de Bad Bunny são um lembrete da história de Borínquen, disse o organizador Adrián Reyes-Rivera.

Músicas como LO QUE LO PASO A HAWAII deixam claro o apelo de Benito.

Capa do álbum de Bad Bunny “DeBÍ TiRAR MáSFOTos”

Quieren quitarme el río y también la playa

Quieren el barrio mío y que abuelita se vaya

No, no suelte' la bandera ni olvide' el lelolai

Que no quiero que hagan contigo lo que le pasó a Hawái

Em português:
“Eles querem tirar o rio e também a praia,
Eles querem o meu bairro e que minha avó vá embora,
Não, não solte sua bandeira nem esqueça o lelolai
Eu não quero que façam com você o que fizeram com o Havaí”

A escolha de Bad Bunny por samples de salsa e reggaeton e seu uso do guïro e da plena homenageiam seus antepassados. O artista usa da plena – também conhecida como "el periódico cantado" ou "o jornal cantado" – e do cuatro, instrumento nacional de Porto Rico.

“Se dizia que a plena era o jornal do povo, já que era usada para documentar e traçar o cotidiano. Esses estilos musicais foram alvo de repressão policial por serem considerados desordenados”, disse Reyes Rivera.

As mensagens de Bad Bunny servem como um chamado para prestar atenção ao que acontece quando os governos dos EUA assumem um território não incorporado e os governos locais se curvam à sua vontade.

Os organizadores disseram que o músico está seguindo os passos dos movimentos e líderes de resistência ancestral porto-riquenhos.

A ilha tem visto um influxo de gentrificação e migração para o exterior, o que teve efeitos devastadores na saúde e na já frágil economia. O custo de vida tem se tornado proibitivo, forçando muitos a venderem suas casas. A ilha está em crise financeira e de moradia acessível, sem salvaguardas para ajudar a apoiar a população quando desastres naturais ou crises econômicas a atingem.

Atualmente, há apenas 34 unidades habitacionais acessíveis disponíveis para cada 100 famílias de baixa renda que alugam, de acordo com uma análise da Builders Patch. Porto Rico ocupa o segundo lugar entre os cinco estados com as maiores taxas de escassez de moradias acessíveis.

Bad Bunny continua seu chamado para lutar pelos porto-riquenhos – na ilha e nos EUA – para resistir às corporações externas que exploram a ilha. É um chamado para proteger a ilha da corrupção governamental, da infiltração de desenvolvedores que buscam privatizar recursos naturais, rios e praias.

“Vocês não querem os porto-riquenhos, mas querem Porto Rico”, disse outra participante, Vanessa, que também se identificou apenas com o primeiro nome.

Após o evento de duas horas e meia, Morales pediu a todos que usassem o momento para mobilizar e educar famílias e amigos.

Outro tema continuou surgindo entre os comentários: o desejo de voltar para a ilha. Vários falaram, em lágrimas, sobre levar suas avós para os EUA para cuidados médicos devido à falta de especialistas e longos tempos de espera. Muitas vezes, os idosos morrem nos EUA, sem nunca poder voltar, apesar de ser seu último desejo.

Puchi DeJesus, membro do Philly Boricua e ativista local, recentemente mudou sua própria avó para a Filadélfia.

“Ela odeia estar aqui. Ela quer morrer em casa. Ela quer ser enterrada no jazigo da família. Isso realmente parte meu coração. Todos nós sonhamos em voltar.”

As gerações mais jovens no evento, sejam nascidas nos EUA ou em Porto Rico, ecoaram os mesmos pontos.

“[Os EUA] fizeram isso. Eles nos trouxeram para cá. Nós nos educamos. Sabemos fazer todas as coisas”, disse Adrianna. “Vamos levar de volta… Vamos recuperar nossa ilha.”

Várias pessoas na plateia acenaram suas pequenas bandeiras porto-riquenhas em apoio, enquanto outros gritavam: “Eso!”


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