“A História de Muitos de Nós” – Gloria Rolando, icônica diretora cinematográfica Cubana, debateu seus filmes e desafios dos afrodescentes, na abertura do Simpósio Schomburg
Por Gabriela Watson-Burkett. 6 de março de 2025.
Gabriela Castillo, Segunda Secretária da Embaixada de Cuba, Evelyne Laurent-Perrault, criadora do Simpósio Schomburg e moderadora da conversa, e a cineasta cubana Gloria Rolando (da esquerda para a direita). Foto: Burkett Photography | Inti Media.
No dia 21 de fevereiro, o Taller Puertorriqueño, um centro cultural localizado na Filadélfia, convidou toda a comunidade para o evento “Flores para Gloria”, iniciativa gratuita que deu início às atividades do Simpósio Schomburg.
Divulgação do evento Flores para Gloria.
Como um dos poucos encontros que celebram a afro-latinidade durante o Mês da História Negra na cidade, “Flores para Gloria” contou com a exibição de uma seleção de filmes seguida de conversa com Gloria Rolando, icônica diretora e roteirista afro-cubana. Com uma carreira de mais de 35 anos no Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficas (ICAIC) e à frente do grupo independente de cinema Imágenes del Caribe, Rolando tem sido fundamental na preservação das narrativas históricas e culturais dos cubanos negros.
Foto: Burkett Photography | Inti Media.
Os documentários de Rolando desempenham um papel importante na documentação da diáspora africana no Caribe, ajudando a preservar sua cultura e valores espirituais. Oggún: Uma Presença Eterna (1991), seu primeiro documentário dedicado àqueles que mantiveram a religião iorubá em Cuba, ganhou o Prêmio de Popularidade no Festival de Vídeo Mulher e Imagem no Equador em 1994. Desde então, ela produziu mais de uma dúzia de documentários premiados. Atualmente, ela está desenvolvendo um filme sobre as Irmãs Oblatas da Providência, a primeira ordem religiosa católica negra nos Estados Unidos.
Gabriela Castillo, segunda secretária da Embaixada de Cuba, também participou da conversa após a mostra. O tema que dominou a discussão foi a respeito do filme média-metragem mais recente de Rolando, Diálogo con mi abuela, 2016 (Diálogo com Minha Avó - em tradução livre). Baseado nas memórias de uma conversa de 1993 entre Rolando e sua avó materna, Inocencia Leonarda Armas y Abreu, a narrativa destrincha com muita delicadeza o especial laço entre elas. Fotos de arquivo transportaram o público para diferentes momentos das vidas de ambas, enquanto performances do Grupo Vocal Baobab enaltecem a relevância da espiritualidade afro-cubana. O média-metragem contou com cenas documentadas ficcionalmente de profunda intensidade emocional.
“Yo traigo azucena para su sana’,
ahi viene ma’ Francisca,
Viene a la boda.”
(lyrics from music used in Dialog with My Grandmother)
Pôster de Diálogo con mi abuela, documentário de Gloria Rolando.
Gloria Rolando, cineasta e roteirista cubana. Foto: Burkett Photography | Inti Media. Photo: Burkett Photography | Inti Media.
“Este documentário é sobre minha avó, minha mãe e minha família, contudo, é também uma homenagem, porque é também a história de muitas mulheres negras comuns, que [sobreviveram] lavando, passando e foram a base de nossas famílias”, detalhou Rolando nesta entrevista.
Membros da comunidade perguntaram a Rolando a respeito do simbolismo das flores azucena (conhecidas como Lírios) usadas no filme durante rituais espirituais. A discussão também abordou o racismo na ilha, ilustrado por uma cena emocionante em que Rolando critica bonecas de cerâmica afro-cubanas—comumente vendidas para turistas—que exageram os traços das mulheres negras (Sem spoilers — para que você assista ao filme!). Rolando observou que essas representações racistas não são discutidas em nível nacional em Cuba, mas são amplamente reconhecidas em conversas privadas. Além disso, ela enfatizou que esses são desafios enfrentados pela diáspora africana além do contexto cubano.
Outro destaque abordado acerca do filme foi a representação das sociedades segregadas em Cuba, categorizadas como negros (apenas negros), mulatos (sic) (apenas mestiços) e brancos (apenas brancos). Fotos em preto e branco evidenciam residentes impecavelmente vestidos em eventos sociais, mas restritos a seus grupos designados. Essa divisão apresenta não apenas a discriminação racial, mas também a fragmentação imposta entre afrodescendentes, uma estratégia colonial e pós-colonial usada em toda a América Latina para enfraquecer a solidariedade negra. Rolando também destacou a falta de pesquisa que tratam de sociedades negras em Cuba, observando: “Provavelmente há mais pesquisas feitas aqui do que na ilha.”
Evelyne Laurent-Perrault, criadora do Simpósio Schomburg e moderadora da conversa. Foto: Burkett Photography | Inti Media.
Evelyne Laurent-Perrault, criadora do Simpósio Schomburg e moderadora da conversa, refletiu em torno das cenas de reconstituição do filme que mostram casais negros dançando em encontros sociais. Ela compartilhou que essas situações lhe recordaram de sua própria família: “Isso me fez lembrar dos meus pais, tios e avós, que não eram de Cuba, mas do Haiti (...) mas carregavam a mesma dignidade.”
Gabriela Castillo Segunda Secretária de Cuba. Foto: Burkett Photography | Inti Media.
Castillo, Segunda Secretária de Cuba, elogiou o filme, enfatizando que Diálogo con mi abuela narra uma “micro-história que forma a história de uma nação”. O filme estabelece conexões entre o passado e o presente, bem como entre a experiência pessoal e coletiva.
Foto: Burkett Photography | Inti Media.
Gloria Rolando viajou de Havana especificamente para esta e outras exibições especiais na cidade, como parte de uma iniciativa organizada pelo Kolectivo Sin Nombre (@kolektivo.sin.nombre), um grupo que “pratica a resistência criativa”.